quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O fogo encantado jamais apagará


Ontem, dia 24 de fevereiro de 2010, um fato na cena artística de Pernambuco me deixou em choque. Depois de 14 anos de estrada (três como peça teatral e 11 como banda), Lirinha saiu do Cordel do Fogo Encantando, alegando precisar se dedicar mais aos seus projetos, como se fosse uma “necessidade vital”. A peça Mercadorias e Futuro colhe até hoje os elogios da crítica nacional. Mas, a banda encerra um ciclo com um jeito bem estranho e duvidoso. Eles estavam gravando o seu quarto disco, intitulado de Brevíssimo Estudo Sobre a Interlândia. Lirinha, durantes suas apresentações, não dava sinais de que sairia da banda.

Agora surgem inúmeras especulações sobre o real motivo do fim do grupo. Enquanto isso, eu só penso em todos os shows que eu fui, e como cada um deles tem uma relação muito forte com épocas da minha vida.

O meu primeiro show foi em 2004, no Festival de Verão do Recife. O primeiro contato foi estranho. Eu era muito novo e tinha ido ao festival ver outras atrações, mas Cordel do Fogo Encantado me seduziu, mesmo eu dizendo a todo mundo depois que havia achado todo o show um saco.

Depois disso, só fui assistir show deles em 2006, num festival que teve em Recife. A banda ainda não tinha lançado seu terceiro disco e também não tinha chamado tanta atenção do público. Assisti como atenção, pela primeira vez, toda a encenação de Lirinha nas músicas “O Palhaço do Circo Sem Futuro” e “Antes dos Mouros”. Me encantei com a melodia suave do violão de Cleiton Barros e os tambores de Rafael Almeida, Emerson Calado e Nego Henrique. Ali, naquele momento, foi quando eu tive a percepção de que aquilo era um grupo perfeito. Não sei se foi pela magia do dia, do momento, pois foi uma época em que eu descobria o amor. Só sei que depois daquele dia, meu mundo mudou.

Teve um show histórico também no dia 25 de dezembro de 2006. O Marco Zero estava lotado. No outro dia eu tinha prova final na faculdade, mas eu não podia deixar de ver os encantados. Nos tempos mais antigos, eu assistia SEMPRE aos shows de cordel ao lado de uma pessoa, como se fosse um pacto. Era mais mágico ainda. Enfim, nesse dia eu fui pra o show e de lá fui direto fazer a prova. Resultado: passei de ano com média nove. hehehe

Me lembro de uma apresentação no Clube Português, no começo de 2007. Naquele dia, eu assistia ao melhor show da minha vida. Fiquei bem uns dois meses pensando no evento. A casa tava cheia, lirinha mais empolgado do que nunca e era lançamento do terceiro CD deles, o Transfiguração. Mais um dia encantado.

Nesse mesmo ano, já no final, enquanto eu passava por chatos problemas pessoais, eles anunciaram um show em Maracaípe, litoral sul de Pernambuco. Ter ido pra esse show foi INESQUECÍVEL. Havia 100 pessoas no local, eu estava há 30 cm do palco e, apesar do pouco público, Lirinha e Cia fizeram um espetáculo bonito, marcante. Ainda me lembro dele cantando “Na Veia” e eu desesperado tentando encontrar uma pessoa que tava próxima de mim no momento, cantando em uníssono: “Eu vou cantar pra saudade descer na minha cabeça, e comandar sua festa!”.

Em 2008 eu vi pela primeira vez a apresentação da peça teatral de Lirinha, chamada Mercadorias e Futuro. A peça é um monólogo de um vendedor de tudo, chamado Lirovisk. Muito interessante, muito engraçada. Não é à toa o reconhecimento da crítica nacional.

Nesse ano também rolou o PE Music Festival... Nesse momento, coincidentemente, eu estava meio mal por causa da mesma pessoa do último show. E naquele momento, o som dos encantados se mostrou para mim como uma alternativa de fuga ou de relaxamento, muito mais prazerosa do que qualquer substância ilícita o lícita. Percebi que estava na hora de romper o pacto. Eu sempre ficava em transe assistindo ao show deles. E, este dia, apesar de não ter sido o melhor show deles para mim, também ficou marcado na minha história.

O MELHOR SHOW DE CORDEL DO FOGO ENCANTADO DE TODOS OS TEMPOS, para mim, foi naquele memorável Ano Novo de 2009. Eu precisava iniciar 2009 MUITO BEM. Era uma questão de sobrevivência. Acho que naquela época eu passava pela situação mais amargurada da minha vida. Mas, graças ao cientista Hoffman (deixo subentendido), eu pude atravessar dimensões e entrar na música dos encantados. Me lembro muito bem disso. Eu realmente estava sentindo a sensação de estar dentro da música. E 2009 foi o melhor ano de minha vida!
Depois desse show, uns 20 dias depois, pude assistir ao show dos encantados no Pelourinho - Salvador. No início do ano passado rolou a Bienal da UNE, e uma das atrações principais era arcoverdense. Ver Lirinha e Cia nas ladeiras da Bahia, do lado de estudantes de todos os cantos do Brasil, foi muito legal.

Ainda teve um show no Carnaval, comemorando os 10 anos da banda. O espaço do RecBeat, na frente do Paço Alfândega, estava completamente lotado. Todo mundo tinha ido ver Cordel do Fogo Encantado. Naquele dia, eles já começaram a mostrar a formação nova (entrou um trompetista e um baixista).

Depois disso, eles ficaram um ano sumidos. Com o perdão da palavra, foi foda. Nem sinal dos caras, só o boato de um disco novo.

Aí veio 2010. Outra vida, outra dinâmica. Juro como não estava ansioso pelo show deles no Marco Zero. Assisti, me encantei, mas não foi a mesma coisa de antes. Apesar de eles terem tocado diversas músicas novas, e do público estar em total conexão com o grupo, faltava algo. O sentimento do show do Ano Novo de 2009 ainda pairava sobre a minha cabeça.

O melhor feito do meu Carnaval 2010 foi ter chutado o pau da barraca e ter ido com Natasha para Itamaracá, junto com um amigo. Na praça do Pilar, o Cordel faria um show. Era o início de um novo pacto. Dr. Hoffman surgia novamente. Tudo dava certo. Apesar de ter iniciado com problemas no som, o show foi DEMAIS. Ainda não consigo assimilar na cabeça que tive a oportunidade de ir para o ultimo espetáculo deles. Eu iria ficar muito amargurado se não tivesse tido essa oportunidade. Dessa vez, em Itamaracá, o público local não era o de Cordel (parecia mais que as pessoas esperavam um ‘Parangolé’ entrar). A cidade estava imunda, jogada aos ratos e baratas. Mas o pacto estava feito, e Dr. Hoffman surge novamente, como no Ano Novo. Foi um show e uma energia ÚNICA!

Ainda sim, fico triste pelo fim do grupo. Queria conversar com Lirinha ou com alguém da banda e tirar alguma frase sincera. O que realmente aconteceu? Por que Lirinha abandona o barco no meio de uma gravação de um CD para se dedicar á carreira solo? Muito estranho.

Finalizo meu texto com uma frase do líder encantado:

“Com a certeza de que o fogo da nossa poesia e da nossa música nunca se apagará e que nossa força é infinita”, Lirinha.


Mais informações sobre o fim da banda no site www.revistaclickrec.com

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